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Como a Animação Japonesa influencia a animação global

Com os seus olhos gigantes, cabelo colorido e em poses expressivas, o Animê é cada vez mais utilizado em conteúdos ocidentais. De jogos à cosméticos, clipes de música à campanhas publicitárias, a inspiração na animação japonesa tem se consolidado na cultura pop mundial. Confira abaixo as reflexões que fizemos para entender criar com esse estilo!

O estilo se popularizou principalmente com as animações dos anos 60, com os sucessos Speed Racer, A Princesa e o Cavaleiro, Dragon Ball, Astro Boy, Cavaleiros do Zodíaco e Sailor Moon. O lançamento da franquia Pokémon no início dos anos 2000 – a maior franquia da história – faturou cerca de 92 bilhões de dólares com licenciamento de diversos produtos até 2019 – superando em números as franquias Batman, Homem-Aranha e Harry Potter juntas. Os desenhos se estabeleceram no mercado internacional e marcaram a infância de várias gerações, ainda mais com os remakes atuais que também inspiram crianças dos anos 2000.

Por mais que muitos pensem que “desenho é coisa de criança”, o Animê tradicionalmente trabalha questões maduras, mesmo dentro dos gêneros de fantasia e ficção. O sucesso Ghost in the Shell lançado em 1995 é um longa de tema cyberpunk, onde a consciência de uma agente é implantada dentro de um corpo robótico super tecnológico. Ao mesmo passo, as séries Ataque dos Titãs (Shingeki no Kyojin), CowboyBebop, Perfect Blue, também são exemplos de animações maduras de sucesso. Por mais que sejam desenhos animados, eles questionam a realidade, discutem valores como honra, liberdade, tecnologia, e instigam a emoção.

Desta forma, o público consumidor dessa área abrange diversos grupos sociais, faixas etárias e gêneros. Os elementos dramáticos, super fofinhos e divertidos da estética agradam um público que também vai além do infantil. Esse publico de fiel, fãs que ‘respiram’ os personagens e universo dos conteúdos influenciam novas demandas de produtos, marcas e serviços diversos.  Com certeza a cultura pop mundial não só abraçou o conteúdo das animações japonesas mas principalmente a estética visual e seus valores. 

A influência do Animê no Mercado

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No Japão e em outros países orientais, o universo de licenciamento dos personagens em produtos variados como pelúcias e maquiagens nas lojas, surgem antes de ganhar vida nas  séries ou filmes animados. A empresa Sanrio, por exemplo, dona da Hello Kitty e Gudetama, é uma  empresa que trabalha apenas com licenciamento de personagens para produtos diversos – de lápis a roupa, e definitivamente a animação não é o carro chefe da marca deste personagem. Ela é reconhecida como a 10ª maior empresa licenciadora do mundo com negócios em todo o mundo e vendas chegam aos US$ 4 bilhões por ano. Lá, os personagens são como celebridades, fazem parte do cotidiano do público e servem como fonte de inspiração.

A marca de maquiagem Colour Pop, por exemplo, lançou um grande sucesso da linha Colour Pop X Sailor Moon, trazendo a estética e personagens da série para o produto – o sucesso foi tão grande que em menos de 24 horas de lançamento o estoque já havia acabado.

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                                                                         Sailor Moon X ColourPop

 

O Animê hoje é alvo de disputa de distribuição de títulos entre as principais plataformas de streaming. A Sony Pictures, produtora da franquia “Hotel Transilvânia”, e dona da Funimation – principal distribuidora de produções asiáticas no ocidente – comprou em 2020 a Crunchyroll por US$1.175 bilhão, a maior plataforma de streaming de animes.

Falando em streaming: depois da chegada da Disney+, as plataformas Netflix e Prime Video passaram a distribuir e financiar produções de animação voltadas também para o público adulto. Resgataram, por exemplo, animações como “He-Man” e “She-ra” ou criaram produções novas como “Invincible” e “Your Name” – e é aí que a animação japonesa se encontra dentro das plataformas. 

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À esquerda, lustração tradicional de She-ra, e à direita listração da adaptação feita pela Netflix.

Enquanto no ocidente as animações passaram a ser massivamente voltadas para o público infantil, o Animê manteve – desde os seus primórdios no mangá – seu posicionamento voltado para uma audiência mais madura, ou para a geração que cresceu assistindo desenhos animados. É fácil perceber uma tendência de sucesso entre os estúdios, com a produção de remakes ou continuações de animações japonesas adoradas pelo público jovem nos anos 70 à 90 como Cavaleiros do Zodíaco, Astro Boy. 

Com a volta da estética retrô, os animês dos anos 70 a 90 voltam à tona, servindo como grande fonte de inspiração para marcas e artistas que pretendem trabalhar com um produto para públicos tão variados. A fim de atender a demanda da nostalgia dentro do mercado atual, não só em conteúdos animados. 

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Ilustrações da adaptação 3D ao lado da tradicional, acima Astroboy e abaixo Cavaleiros do Zodíaco.

Mas como identificar a influência do Animê dentro das outras produções? Com a globalização e comunicação em massa, fica cada vez mais difícil identificar a origem de cada influência visual no mercado. Separamos alguns exemplos do uso dessa estética “infiltrada” em produtos diferentes e como a suas características conversam com os valores do produto.

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No comercial do amaciante Downy, os personagens coreanos da TinyTan assumem uma forma de influência da cultura kawaii, que significa “fofo” em japonês

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No comercial produzido pelo Estúdio Ghibli da grande cia japonesa de produtos alimentícios, Nisshin, nenhum produto é mostrado, apenas o gatinho atrás de uma borboleta.

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No comercial “Ariana Grande – R.E.M. Fragrance”, há a utilização do conceito “robôs gigantes” ou grande máquinas de guerra, utiliza do conceito do famoso gênero mecha do animê, reproduzido em massa na mídia e provavelmente influenciado pela franquia de Godzilla.

Características da Arte Japonesa

A forma como os conflitos são representados na animação japonesa, carrega uma emoção que a animação ocidental dificilmente explora. A questão sobre “ver a beleza natural ao seu redor”, no qual cada elemento tem sua razão emocional de estar lá e existir, encontra-se cada vez mais presente nas narrativas de sucesso, tais como o filme “Soul”. Os personagens, por sua vez, enfrentam conflitos no seu universo que dialogam com suas fraquezas.

A cultura japonesa transmite seus valores e suas percepções impressas em elementos visuais, como em cerimônias, na escrita kanji e na arte tradicional. Isso não seria diferente no animê. Tradicionalmente, para os estúdios de animação japonesa, a  técnica do traço não deve interferir na imersão do espectador na narrativa em si, mas sim, supervalorizar as reações dos personagens e a ambientação da cena. Se seguirmos a fundo, a própria base artística japonesa se difere da ocidental eurocentrista. Ao contrário da arte tradicional europeia, a arte clássica nipônica não procurava representar a realidade com perfeição, mas transmitir sensações, mesmo que precise distorcer a perspectiva e as figuras humanas.

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À direita Nakahara in the Sagami Province e a esquerda The Great Wave off Kanagawa, ambas as obras do pintor japonês do período Edo, Katsushika Hokusai

Outro fator significante para o reconhecimento internacional da animação japonesa foi a primeira conquista estrangeira no Oscar em 2001 na categoria de Melhor Animação, o filme produzido pelos Estúdios Ghibli, “A viagem de Chihiro”, dirigido por Hayao Miyazaki. O filme que faturou em bilheteria mais de US $277 milhões, virou referência mundial quando o assunto é animê.

O grande mestre da animação japonesa, Hayao Miyazaki, nem sempre começa suas obras a partir de uma narrativa, por exemplo. Seu processo de criação geralmente começa através de um único desenho e, a partir dele, concebe os personagens, o universo e, por fim, a história. Para ele, o personagem perfeito não existe, mas seus valores e personalidade devem ser nítidos e precisam transmitir uma sensação. Tudo que gera uma sensação, costuma ser memorável. A imagem em si tem o poder de transmitir, de forma muito mais detalhada e sensível, o conceito de uma cena ou marca do que uma descrição literal.

A essência da arte japonesa, se expressa na valorização de emoções antes da representação do real; é sobre deixar nítido o sentimento antes da mensagem. Tudo que transmite uma sensação tende a ser memorável.

As ideias e sentimentos são consolidadas em uma imagem, assim como as marcas. Os logotipos são representações de todos os valores e sensações que uma marca gostaria de transmitir, e personificar a marca, muitas vezes representada não só pelo símbolo, mas em assistentes virtuais, por exemplo, também carrega essa essência. Já refletimos sobre os elementos de sucesso para personificar a marca em personagens (confira no link). 

Para a criação de uma personificação da marca ou um vídeo conceito, é preciso aprofundar nas sensações que a marca transmite. Feche os olhos e pense na sua marca favorita. Que sensação ela transmite? Doçura, agilidade, confiança? Que cores você vê? Que tipo de roupa o personagem vestiria? Ele é mais formal, desajeitado ou fofo? Até parece que estamos lembrando das características de alguém. 

Além do traço ou da técnica, é necessário aprofundar em quais valores e sensações a marca gostaria de transmitir ao público para que, assim, os artistas os transformem e transmitam em ilustrações, cores e movimentos. Enfim, ganhar vida.

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Youtuber virtual e embaixadora dos contúdos de animê da Netflix, N-Ko

Temos muito ainda a aprender e trocar com a cultura oriental. Sabedorias antigas podem nos ajudar muito a lidar com a cultura pós-moderna hiper-conectada, ansiosa por cada vez mais conteúdo. Existem milhares de formas de como contar uma história. Às vezes, é preciso deixar o traço fluir e encontrar os sentimentos ligados ao que você quer passar, para que a própria ilustração te diga qual é a sua história. Independente da técnica ou estilo, o processo de criação também influencia muito no resultado final. Para um mundo cada vez mais conectado, conhecer os variados estilos e processos é sempre enriquecedor. Mas lembre-se que o sentimento sempre vai liderar toda cadeia de desenvolvimento de seu produto, marca ou personagem, influenciar em seu sentido e significado, tanto para a arte, ou para o nosso mundo real.